O Imperador é um deus?
O Imperador Hirohito, após a derrota na guerra, proferiu e assinou uma declaração dizendo que ele era um ser humano comum, que não era um semi-deus.
Hoje, quando perguntados sobre o Imperador, os japoneses respondem como papagaios: O Imperador é um ser humano comum e não tem poderes políticos. Ele é apenas um símbolo.
E sempre há os que acrescentam: Nós não precisamos de Imperador. Ele não serve para nada
.
O Imperador ShowaPode-se perguntar para qualquer um aqui e a resposta sempre vem praticamente nas mesmas palavras. Por isso eu disse que eles repetem como papagaios. Para mim, isso é um sinal claro de eles sofreram e ainda sofrem lavagem cerebral, tanto por parte das escolas como por parte da mídia. Mas, pelo que eu sinto, eles falam isso da boca para fora, enquanto, mesmo sem perceber, sentem outra coisa.
Com relação a religião, também, todos os japoneses que eu conheço se declaram ateus, embora os mesmos façam hatsumode no Ano Novo, comemorem o o-bom no verão e casem-se ou em cerimônias cristãs (mais de 60%) ou xintoístas. Neste ponto, no entanto, eu acredito que seja um sentimento real: os japoneses não praticam, nem acreditam em nenhuma religião. Tanto é assim, que muitos não entendem mais o que é o xintoísmo.
O xintoísmo é uma religião própria do Japão. Embora tenha grande influência do confucionismo (que não é uma religião) e menos do budismo, é uma religião autenticamente japonesa. O xintoísmo é politeísta, e que cada templo xintoísta — chamado de jinja &mdash é dedicado a um ou mais deuses. O xintoísmo também considera — ou pelo menos considerava — o Imperador como sendo um deus. Este é um ponto que causa grande polêmica, principalmente no ocidente, pois os cristãos acham um absurdo adorar um homem vivo como sendo um deus.
Realmente seria um absurdo se os deuses xintoístas fossem como o Deus de Abraão, Isaque e Jacó. Mas não são. Eu acho que a analogia mais próxima é com os santos católicos. Com uma grande diferença: os deuses xintoístas não são santos. Uso santo aqui com o sentido de extremente benevolente, caridoso ou inocente
. A Madre Tereza é uma santa nesse sentido, mas os deuses xintoístas não são. Eles têm características humanas (embora nem todos sejam humanos), tem as suas preferências, os seus desafetos e por vezes se vingam dos seus inimigos. Nesse ponto, podem lembrar um pouco com os deuses (ou santos) da umbanda, mas só um pouco, pelo simples fato da umbanda também ser uma religião politeísta.
Acontece que todos os deuses da umbanda são mitológicos. Não existe a história deles como homens. Eles sempre foram deuses. Muitos deuses do xintoísmo, por outro lado, foram homens, como os santos católicos. Eu não estudei muito sobre o xintoísmo, mas pelo que eu entendo, é muito mais simples de erguer um templo para venerar um ex-homem e tê-lo aceito pelo xintoísmo do que canonizar um santo católico.
Para se ter uma idéia da comparação, eu diria que se o Brasil fosse xintoísta, Ayrton Senna seria um deus. Provavelmente também o seriam, assim que falecessem, o Pelé e o Roberto Carlos, afinal, ambos são reis
não são? Posso citar outros como Tiradentes, Santos Dumond, Carlos Chagas (o da doneça de Chaas) e, porque não, Zumbi dos Palmares. Cada um desses teria um tema. Ayrton Senna seria o deus dos motoristas; Tiradentes, o deus dos dentistas, e da saúde bucal; Carlos Chagas seria o deus da cura das doenças incuráveis; Santos Dumond, o deus da aviação e da pontualidade; e Zumbi dos Palmares poderia ser o deus da luta pela liberdade.
É nesse sentido que o xintoísmo considera(va?) o Imperador um deus. O Imperador, contudo, declarou da sua própria boca que não era um deus. O que mudou? Na minha opinião, nada. Pode ter mudado a constituição, podem ter-lhe tirado o poder político, podem tê-lo desmoralizado perante o povo japonês e o mundo, mas não há como tirar-lhe a divindade. Deus existe enquanto houver quem acredite nele. Como eu disse, os japoneses não acreditam, mas muita gente, quando precisa de ajuda, vai até o templo do seu deus preferido, bate três palminhas, toca o sino e faz o seu pedido.
No xintoísmo não se exige uma fé do tamanho de um grão de mostarda como no cristianismo. Não precisa ter fé. A sua fé não vai mudar a vontade dos deuses. Não há a obrigação de acreditar e, talvez, por isso mesmo, e mesmo sem parecer, os japoneses acreditam. No Japão não é um sacrilégio falar abertamente que não acredita em Deus (em nenhum deus). E também não é uma incongruência se essa mesma pessoa sair dali e ir fazer um pedido num templo. Nesse sentido, embora muitos tenham convicção de que o Imperador não é um deus, outros, talvez por costume e tradição, talvez por genuíno sentimento religioso, embora possam negar com a boca, acreditam em seus corações.
Comentários
Ah eu queria te perguntar: eu achava que todo mundo se chamava pelo sobrenome-san aqui, mas o meu orientador por ex, ele soh chama os alunos de sobrenome-kun, o que quer dizer isso? Abç
Você tem nacionalidade japonesa?
Poste sobre xenofobia, custo de vida, etc.!
Parabens!
Eu não tenho nem aspiro à nacionalidade japonesa e acho que é muito difícil de conseguir.
Xenofofia? Penso em escrever sobre isso, mas não posso prometer quando, mas já adianto que fiquei decepcionado quando percebi que os japoneses não são preconceituosos. Esperava que fossem racistas, que se achassem superiores, afinal é isso que o mundo diz deles, certo? A realidade aqui é o extremo e completo oposto disso.
Depois que o Hirohito foi pra Disneylandia em 1975, nao sobrou nenhuma duvida da sua nao-divindade.
Imagino que daqui a 200 anos o imperador japones vai virar mais ou menos o que a rainha da inglaterra é hoje. Se ja nao é hoje!
O problema quando se afirma isso é que muita gente toma a palavra "deus" no sentido cristão. Os deuses xintoístas não são como o Deus cristão nem como Alá, nem como os deuses gregos nem como os orixás afro-brasileiros. Os deuses xintoístas são deuses xintoístas e ponto. Devem ser entendidos assim.
O verbete da wikipédia sobre o xintoísmo recomenda que se utilize a palavra "kami" para se referir aos deuses xintoístas e evitar confusões.
Nao seria:
"dizendo que ele era um ser humano comum"?
Não é bem assim. Atualmente, o Imperador não tem poder político; o poder dele está na religião, que (pelo menos externamente) é desprezada pela maioria dos japoneses. Sendo assim, não faria sentido os EUA usarem o Imperador como “marionete”, visto que isso não traria vantagem nenhuma para os americanos.
Dito isso, eu concordo que o Japão atualmente não é um país soberano, pois está proibido pela própria constituição — escrita pelos americanos — de ter um exército e ao mesmo tempo, devido a acordos feitos depois da guerra, é obrigado a manter bases militares americanas — financiadas com o suado dinheiro dos impostos pagos pelo povo japonês — dentro do seu território. Em troca os americanos se oferecem para defender o Japão caso seja atacado por outro país. Mas a questão é: quem defenderia o Japão contra os EUA? O Japão é uma nação com uma arma aponta contra a cabeça; não é soberana.
É triste.
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