Os japoneses são frios? — I: O corpo

Antes de eu vir para o Japão, alguns amigos e conhecidos me avisaram: “os japoneses são muito reservados, vai ser difícil de você fazer amigos por lá ” e “eu tenho um conhecido que morou dois anos do Japão e não conseguiu fazer nenhum amigo”. Eu não levei muito a sério. Sou teimoso. Tenho que ver para crer. Mas, chegando aqui, logo no início do verão eu entendi que tipo de frieza eles têm.

Japonês, antes de ser frio, é friorento. No forte do verão, quando chega a fazer 40℃ de calor, os meus colegas do laboratório ajustavam o ar condicionado para 28℃. Considere-se que há janelas por onde o sol penetra e a porta não fica o tempo todo fechada, portanto a temperatura facilmente passa dos 30℃ nesse ambiente. Para mim, que sou de um lugar onde a temperatura dificilmente ultrapassa os 35℃, 30℃ é muito quente. Quando ninguém estava vendo, eu ia lá e baixava para 24℃ (se bem que eu gostaria de poder colocar uns 20℃). Logo que alguém entrasse na sala, diria: “que frio!” e regularia o ar condicionado novamente para 28℃.

No começo, eu achava que eram só os meus colegas da universidade, mas com o tempo fui percebendo que em todos os lugares é assim. É como se fosse uma regra: ar condicionado se regula para 28℃; no mínimo 26℃. Se tiver abaixo disso, já vem gente reclamando que está frio. Diante dessa constatação, eu concluí que não havia muito a fazer senão ter paciência e esperar que chegasse o inverno. Não adiantou. Aqui, eu passo calor no inverno também! Pelo menos, dá sempre para sair lá fora e aproveitar um ventinho fresco, coisa que no verão é impossível.

No hotel onde eu trabalho, há quartos com regulagem individual do ar condicionado e quartos com ar condicionado central. Nos quartos com regulagem individual, o marcador registra 22℃, verão e inverno. Mas eu acho que aquele marcador tem problemas, porque é quente. Nos quartos com ar condicionado central também é quente, especialmente no inverno. Dá para notar bem a diferença entre japoneses e americanos/europeus na sensibilidade ao frio. Num mesmo quarto, quando estrangeiros entram, a primeira coisa que querem fazer é abrir a janela para deixar entrar o ar fresquinho de fora. Se forem japoneses, algumas horas mais tarde, estarão pedindo cobertores porque acham que está frio. No local onde eu durmo lá também é assim. No início do outono, quando eu durmo sem camisa e só com um lençol, já tem colega japonês dormindo todo vestido, com um cobertor e um endredom por cima!

Ainda no hotel, outro dia, eu encontrei a secretária do gerente geral no elevador. Ela estava com um casaquinho de lã e uma manta enrolada no pescoço. Aí perguntei: “É gripe?” E ela disse: “Não. É que no escritório é muito frio.” Acontece que o gerente geral do hotel é americano e deve regular o ar condicionado para o gosto dele. Pobre japinha friorenta!

Com exceção das lojas de conveniência (que chegam a ser frias no verão), as demais lojas não dão aquela sensação gostosa de que entrou numa geladeira, típica de shopping centers e magazines. Mas o pior é no inverno, quando elas são realmente quentes. Dá apra ficar de manga curta lá dentro. Imaginem, eu saio de bicicleta num frio de 0℃, logicamente bem encasacado para me proteger do vento, e entro numa loja dessas. É entrar e ir arrancando as roupas, porque não dá para agüentar o calor.

Parece exagero de minha parte e, eu mesmo achava que era impressão. Até o dia que eu fui para o Brasil para visitar. Peguei um vôo da JAL (Japan Airlines) de Osaka para Tóquio e depois um da American Airlines de Tóquio para Chicago. No avião, a temperatura é totalmente controlada, pois independente da época do ano, a 1.000m de altitude, do lado de fora é frio. Pois no vôo da JAL eu passei calor! Não chega a ser um calor de fazer suar, mas é suficiente para dar um desconforto. Quando troquei para o avião da American Airlines, quanta diferença! Aí eu tive certeza que não era impressão, mas realmente os japoneses, em todos os lugares, sentem mais frio do que nós (os gaúchos — não me arrisco a dizer falar sobre como se sentem os brasileiros de lugares que não tem inverno).

Não sei até que ponto que isso é cultural ou genético, afinal o Japão não é só um país, mas é também uma língua, uma cultura e uma etnia. Eles também ficam admirados comigo na entrada do outono, quando eles já usam blusões e eu ainda estou de manga curta.

Falei aqui mais sobre a ”frioreza“ do que sobre a frieza em si. Nos próximos artigos, vou abordar outros aspectos de frieza que é atribuída aos japoneses.

Adriano Dal Bosco
, 05 Abril 2005, às 21:38

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Comentários

# Anonymous Kat em 29 Junho, 2006 21:51
Sao assim tao friorentos?
Que horror.
So de pensar que em Agosto vai tar um calor dos infernos por aí,e que mesmo assim, eles nao sentem assim tantoooooooo calor... Vou dar em doida.. Realmente.. so vou levar roupa o mais fresca possivel
Beijos  
# Anonymous Marcelo em 09 Julho, 2006 01:41
Isso provavelmente é verdade. Moro em Curitiba. Como todos sabem, frio aqui é bastante normal. Só que a minha professora de japonês, que é japonesa issei, vive reclamando do frio, já comprou um daqueles aquecedores incandescentes e, não satisfeita, comprou um outro a óleo. Outra constatação que fiz é quando morei no Japão. Sabe aquele calor úmido abafado de praia no verão do Brasil? É o típico calor japonês. Bem... quando no Japão, vi vários cidadãos (japoneses) vestidos com aquelas camisas de manga comprida por cima de uma camiseta (traje muito comum de jovens universitários) debaixo de quase 40 graus, meu... e eu, suando que nem um cavalo, de camiseta e bermuda, pedindo água!

Não deve ser coisa genética, porque eu sou descendente de japoneses. Deve ser a comida do Brasil. Churrasco e caipirinha, talvez.  
# Blogger helder em 11 Novembro, 2006 21:51
eu queria saber como eu faço pra entrar em contato com você, por que eu tambem quero ir para o Japão mais nem sei por onde começar  
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