Meiwaku (迷惑)
Meiwaku é uma palavra japonesa que é definida pelo dicionário como incômodo. Nada de especial nisso. O interessante é o quanto eles usam essa palavra e o significado que ela tem para eles.
Na verdade, causar incômodo é meiwaku, mas existem outras coisas que também o são e não necessariamente causam incômodo. Aliás, em japonês incômodo, no sentido de atrapalhar, diz-se jama e não meiwaku. Meiwaku é qualquer tipo de mal, incoveniência, vergonha, preocupação, etc. que se possa causar a terceiros. E certamente, uma das coisas que o japonês tem cuidado na vida é para não causar meiwaku aos outros; algumas pessoas chegando ao extremo de cometer suicídio para garantir que não causarão meiwaku aos outros. Vou tentar explicar, dando exemplos e separando por alguns sentidos comuns que a palavra pode ter.
Incômodo
Meiwaku nesse sentido é uma coisa bem familiar para nós. A palvra é muito utilizada em placas na rua. Exemplos:
- Não estacione na esquina porque causa meiwaku aos outros.
- Ao utilizar o estacionamento à noite, desligue o motor e não bata as portas do carro com força, porque isso é um meiwaku aos vizinhos.
- Não coma nem beba na frente desta loja porque causa meiwaku aos vizinhos.
Essas mensagens parecem um pouco esquisitas para nós, porque elas acrescentam uma justificativa para cada coisa que proibem. Isso é uma característica da língua japonesa que eu vou comentar outro dia.
Vergonha
Embora o brasileiro não se importe tanto quanto os japoneses se está causando incômodo aos outros, também não dificuldade nenhuma para entender que as situações acima em algum grau causam incômodo. Mas, no Japão, esse conceito vai mais longe. Por exemplo, um estudante representando uma escola numa maratona. Como qualquer ser humano nessa situação, ele vai treinar e se preparar antes da competição. O estudante japonês também, porém com muito mais dedicação, para garantir que ele não vá causar meiwaku à escola e aos colegas. Se, mesmo dando tudo de si, ele não tiver um bom desempenho, é provável que peça desculpas publicamente à instituição (escola) e aos indivíduos (os colegas) pelo possível meiwaku que possa lhes ter causado. Mas se ele fez tudo o que podia, por que ainda ele é culpado de trazer vergonha sobre a escola? Ele poderia ter cedido a posição de representante da escola a outra estudante.
O caso acima é difícil de entender porque a maneira de raciocinar do brasileiro e do japonês é diferente. No Brasil, a responsabilidade pelo bom desempenho na maratona é de toda a escola, recaindo especialmente sobre o treinador e o diretor da escola. Se o estudante tiver feito um esforço razoável, mesmo que tenha um péssimo desempenho, será prontamente perdoado pelos colegas e não haverá necessidade de desculpar-se. Se, na escola, houvesse outro aluno com capacidade superior ao que participou da maratona, a culpa da derrota recairá sobre o treinador. Em caso de vitória, a alegria é da escola toda, mas o mérito é individual do aluno. Em suma, no Brasil as responsabilidades são coletivas, mas os méritos são individuais; no Japão as responsabilidades são individuais e os méritos são coletivos. Para explicar isso, preciso escrever um artigo sobre a importância do grupo sobre o indivíduo no Japão.
Preocupação
Há alguns meses atrás um jovem japonês foi seqüestrado e assassinado por terroristas no Iraque. Posteriormente, a família do falecido pediu desculpas publicamente pelo meiwaku que causou ao país. Eu assisti pela tevê esse pedido de desculpas e achei normal, porque eu vejo isso todos os dias ao meu redor. Somente depois que eu li uma reportagem num jornal brasileiro, que comentou o fato num tom de crítica (à cultura), eu percebi o quanto aquele gesto não é normal nas culturas ocidentais. No entanto, se o autor dessa reportagem entendesse um pouco da cultura japonesa, acredito que não teria nem comentado o assunto. Digo isso, porque não necessariamente a família sentiu que causou incômodo ao país, mas a situação exigia essas palavras dos familiares. Para entender melhor o que eu quero dizer, leia o artigo sobre tatemae.
No caso acima, mais do que um incômodo, o jovem causou uma preocupação ao povo japonês. O que caracterizou o fato acima como meiwaku foi que o jovem não atendeu às recomendações do governo japonês. Ninguém tem dúvidas de que o Iraque é um país perigoso para estrangeiros, especialmente os cidadãos de países que enviaram tropas para lá. O governo japonês vem recomendando que os cidadãos japoneses não entrem no Iraque, sob qualquer pretexto. O referido jovem desobedeceu às recomendações do governo e colocou a própria vida em perigo, causando um sério problema para o governo e uma preocupação para todos os cidadãos japoneses.
É semelhante ao caso do francês que escalava prédios e apareceu no fantástico uma vez. Onde ele ia, era preso. Porque, mesmo nas culturas ocidentais, não é aceito que uma pessoa deliberadamente coloque a sua vida em risco. O fato de fazer com que a polícia e/ou os bombeiros sejam mobilizados, é sem dúvidas um incômodo para a sociedade. Até mesmo porque os bombeiros, por exemplo, podem estar deixando de apagar algum incêndio e salvar vidas para proteger a vida de um sujeito que só quer atenção.
De maneira análoga, os filhos que não obecem aos pais, lhes causam meiwaku. Especialmente quando se envolvem em acidentes ou com a polícia.
Alguns exemplos
- Um estudante que repete de ano ou demora para se formar causa meiwaku aos pais, porque eles estão, em primeiro lugar, ansiosos para ver o filho e formado (preocupação) e, sem segundo lugar, estão se esforçando para economizar e ganhar o dinheiro suficiente para que o filho possa estudar (incômodo).
- Um funcionário que não faz o seu serviço direito causa meiwaku à empresa e aos colegas. À empresa, porque se alguém de fora tiver acesso ao serviço de baixa qualidade feito por esse funcionário, a imagem da empresa ficará compromentida (vergonha). Aos colegas porque o serviço que ele não fizer direito terá que ser consertado ou refeito por outras pessoas, as quais já têm os seus próprios afazeres e responsabilidades para se ocupar e preocupar (incômodo).
- Um caso que aconteceu comigo. Um dia no trabalho eu fui advertido por um superior na frente de um inferior a mim, dentro da hierarquia que existe lá. Bastou o superior se afastar, para o inferior apressar-se a se desculpar comigo pelo meiwaku que estava me causando. Eu fui advertido, mas ele tomou a culpa da situação para si e se mostrou responsável pela vergonha que eu deveria estar passando sozinho. Eu não acho que ele realmente se sentiu responsável; apenas foi educado.
- Recentemente um outro colega de trabalho deixou o emprego. Ele não tinha muito tempo e por isso estava trabalhando somente aos sábados. Eu perguntei para ele se ele não poderia continuar trabalhando somente aos sábados como vinha fazendo até então. Ele me respondeu que se ele não pudesse trabalhar com mais freqüência, estaria causando um meiwaku à empresa. Por isso resolveu se desligar de vez.
Comentários
No manga fruits basket tm um personagem q quase se mata pq ele axa q ele soh faz meiwaku.. xD..
Beijos
Kat
Acho que deveria prolongar mais alguns anos aqui no Japão e pensar seriamente em escrever um livro..
Parabéns mais uma vez!!!
Fique 6 anos aí no Japão. Em maio deste ano (2007), eu voltei para o Brasil. Voltei porque o meu visto venceu, pois foi num momento em que eu mais estava interessado nas coisas do Japão e eu senti como se tivesse sido arrancado daí sem poder terminar o que eu pretendia.
Não sei quantos mais anos seriam necessários, mas sei que eu ainda não estava satisfeito com o que eu tinha conseguido aprender.
Mas... fazer o que? É a vida. Antes de vir, comprei uma pilha de livros que estou lendo aos poucos agora. Com freqüência, leio os jornais japoneses na internet, e sempre leio alguma coisa no mixy e no 2channel, para não perder o contato.
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